Ocupamos escolas por todo o mundo para protestar contra a incação climática

Ocupamos escolas por todo o mundo para protestar contra a incação climática

Artigo original publicado no The Guardian, a 26 de Julho de 2022.

Estudantes de escolas e universidades de todo o mundo estão a planear levar as greves estudantis um passo mais longe e ocupar os nossos campi para exigir o fim da economia fóssil. Tirando uma lição dos estudantes activistas nos anos 60, a juventude do movimento pela justiça climática bloqueará a normalidade. Não porque não gostemos de aprender, mas porque o que aprendemos já deixa claro que, sem uma quebra dramática deste sistema, não podemos assegurar um planeta habitável para os nossos presentes e futuros.


Porquê ocupar? Porque marchámos. Lançámos petições. Escrevemos cartas abertas. Reunimos com governos, conselhos e comissões. Fizemos greves. Enchemos praças, ruas e avenidas com milhares e, no total, milhões de pessoas em continentes por todo o planeta. Gritámos com todo o nosso fôlego. Algumas de nós até participaram em bloqueios, sit-ins e die-ins. E quando parecia que a semente da transformação social profunda e radical estava a criar raízes no meio das massivas mobilizações climáticas de 2019, veio o Covid-19, e o nosso ímpeto diminuiu drasticamente. O que não diminuiu, contudo, foram as emissões de gases com efeito de estufa, a exploração do Sul global e os lucros inimagináveis acumulados pela indústria dos combustíveis fósseis.


Não é segredo que o nosso inimigo, a indústria dos combustíveis fósseis, governa o mundo. E está longe de cair; na realidade, está mais forte do que nunca. A prova é uma investigação recente do The Guardian que revelou ao mundo que o império dos combustíveis fósseis tem 195
projectos de “bombas de carbono” que ameaçam a nossa esperança de limitar o aquecimento global até 1,5ºC, a barreira de segurança. É verdade: apesar do espectáculo hilariante dos nossos políticos e instituições na Cop26 em 2021, as maiores companhias petrolíferas estão no bom caminho para gastar diariamente 103 milhões de dólares em projectos de
destruição planetária durante o resto da década.


Além disto, a crise climática não é uma crise justa. Os últimos relatórios do IPCC mostram que aqueles que são mais afetados pelas alterações climáticas são muitas vezes os que menos fizeram para as provocar em primeiro lugar. Como jovens nascidos no limiar da maior catástrofe da história da humanidade, é nossa responsabilidade histórica erguermo-nos para a travar. Então, o que é que fazemos? Uma vez que ceder ao derrotismo nunca será uma opção para nós, temos agora de nos organizar a uma escala maciça. Precisamos de criar um novo pico de mobilização, ainda maior do que 2019. Se estivéssemos à espera de um sinal, é isto. Com
temperaturas a subir cada vez mais rápido, nunca tivemos tanta certeza de que uma mobilização maior do que nunca é não só possível, mas existencialmente necessária.


Não podemos repetir erros anteriores. Precisamos de ser mais perturbadores do que nunca, pois essa é a nossa única hipótese de sobrevivência. A inovação e criatividade de jovens, combinadas com um apetite feroz pela perturbação e libertação, podem mudar o mundo. Como
geração global de estudantes, precisamos de perturbar a normalidade, e começar pelos espaços onde temos o poder de mobilizar e organizar – as nossas escolas e universidades. Por vezes estão directamente implicados no negócio da destruição, como é o caso de muitas universidades que investem na indústria dos combustíveis fósseis, tais como Oxford,
Stanford, Princeton, Yale, McGill, Northwestern, MIT, etc. Noutros casos, estão indirectamente ligadas ao mesmo. Elas formam-nos para um mundo que não tem futuro, um mundo de capitalismo fóssil. Querem que nos sentemos na escola e aprendamos como se tudo estivesse bem. Mas o mundo para o qual estamos a aprender – o mundo que criou a crise climática – não tem futuro. A grande questão da nossa geração, “Como criar um mundo sem catástrofe climática?”, não será respondida se nos sentarmos na escola.


A questão fundamental é: não podemos continuar a fingir que está tudo bem, estudando como se o planeta não estivesse em chamas. Como outros estudantes fizeram antes de nós – desde os estudantes de Maio de 68 em França até à Primavera árabe, desde a Revolução dos Pinguins
Chilenos, Primavera Secundarista no Brasil e Occupy Wall Street, vamos parar as nossas vidas normais para mostrar aos nossos governos e à sociedade que precisamos de mudar tudo, agora. De Lisboa à Califórnia, do Peru à Alemanha, e de Madrid à Costa do Marfim, apelamos aos jovens para que se reúnam e organizem uma geração revolucionária internacional
que possa mudar o sistema.

Entre Setembro e Dezembro de 2022, ocuparemos centenas de escolas e universidades em todo o mundo para acabar com a economia fóssil a nível internacional sob o apelo à acção “Fim ao Fóssil: Ocupa!”. Convidamos todas as pessoas a se juntarem a nós e organizarem ocupações nas suas escolas ou universidades, desde que sigam os nossos três princípios: ocupação liderada por jovens, enquadramento de justiça climática, eocupar até vencer. Reanimaremos o movimento esstudantil, criaremos novas alianças, radicalizaremos, envolveremos toda a sociedade para apoiar e ocupar, e visionaremos o mundo que queremos – onde a vida e
não o lucro estão no centro – através deste momento de acção internacional. Erguer-nos-emos em tom de justiça e libertação para esmagar a indústria dos combustíveis fósseis. Não temos dúvidas: os jovens são um sujeito revolucionário. Vamos inverter a maré, mudar a história, e esmagar a economia fóssil.


Estamos aqui. Somos radicais. Estamos prontos para ocupar.

Artigo escrito e assinado por ativistas envolvidos na ação internacional End Fossil: Occupy!.

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